13 de março de 2011

Carta aberta aos “senhores” dirigentes

Tenho ouvido comentários, da mais diversa esfera pública, que os jovens que pretendem manifestar-se no dia 12 de Março não têm uma reivindicação em concreto; que não sabem bem o que querem e ao que vão; que não têm um fio condutor... Pois digo-vos, “senhores” dirigentes, que aquilo que os jovens querem é muito concreto. Querem o cumprimento das promessas feitas ao longo dos últimos trinta e sete anos. Foram muitas. Lembram-se? Compreenderão, portanto, que não se batam estes por uma coisa só. Porém, um fio condutor une-os a todos: o cansaço.

Estão cansados das vossas caras, das vossas vozes, da monotonia monocromática dos vossos fatos; da vossa cobardia, da vossa inépcia, da vossa escandalosa desonestidade; da demasiada sorte dos vossos amigos em alcançam bons negócios, bons cargos, bons concursos “públicos”. Estão cansados de serem preteridos em função dos vossos filhos e dos filhos dos vossos amigos e correligionários, para os quais há sempre um bom emprego, um bom cargo, um bom lugar na esfera social. Estão cansados, “senhores” dirigentes da vossa falta de vergonha e respeito pela inteligência deles, e de sentirem que os andam a tentar comer por parvos.

Porque é que não há um filho de um deputado desempregado? Porque é que não há um filho de um ministro; ex-ministro; presidente; ex-presidente desmpregado? Porque é que não há um filho de um "grande" autarca desempregado? Porque é que não há um filho de um alto magistrado desempregado? Que Universidade é essa onde estudam os vossos filhos e os filhos dos vossos amigos e que os forma com aproveitamento absoluto? Ou tratar-se-á o caso de um fenómeno genético, a perfeição de um DNA detido apenas pelos “senhores” e pelos vossos amigos?

Estão cansados, estes jovens, de ver os seus impostos, os impostos dos seus pais, dos seus avós, gastos em processos que nunca condenam ninguém; em estudos para grandes obras que nunca hão-de servir ninguém; para pagar os juros de uma dívida externa que nunca se há-de pagar a ninguém. Estão cansados, “senhores" dirigentes, das desculpas do costume; da lengalenga do costume. Conhecem-lhe bem a tradução: primeiro é toma, depois retoma, depois toma outra vez… Estão cansados de estagiar para o boneco em organismos do Estado. Até na tropa se ganhava para o tabaco! Estão cansados de receber quinhentos euros por oito horas de trabalho num call-center para uma empresa de Outsourcing que encaixa, por cada um, três vezes o ordenado que lhes paga, só porque os grande grupos económicos não estão para se responsabilizar. Estão cansados de andarem aos papéis, de um verde chamado recibo, cujos únicos beneficiários são os empregadores e o Estado, muitas vezes uma e a mesma coisa. Estão cansados de esperar, “senhores” dirigentes. Estão cansados. Cansados!

Deram-lhes um disco, uma cartilha de promessas e um aperto de mão para o futuro. As promessas ficam para qualquer dia, o disco de duas faixas já não se aguenta e o aperto de mão… Tenham lá paciência! Há mais democracia do que aquela que lhes querem vender. Há mais futuro para além dos “senhores” e esse futuro é da geração que o reclama. Não a tomem por rasca. Não a tomem por ignorante. Não a tomem por desvalorizada. Não a tomem por parva, que aqui já não há conformados. Há formados, informados, inconformados, informatizados, contra-formatados.

Em resumo, “senhores” dirigentes: os jovens do 12 de Março querem uma luz ao fundo do túnel que não seja a de um comboio. Não sei se me expliquei bem.


Norberto Morais

http://ditoisto.blogs.sapo.pt/457.html